Quando ensinamos e aprendemos a dizer adeus

by | May 29, 2018 | Histórias

Aquele parecia ser um dia como outro qualquer. Nada indicava que seria diferente.

A rotina da casa era a mesma: os passos apressados, o barulho da cafeteira, o frigir dos ovos, o cheiro de bacon frito, o leite sendo despejado na tigela de cereal da netinha, o gato lambendo sua ração. Em poucos minutos, todos estavam prontos para sair: uns para o trabalho e a neta para a escola.

Depois que todos saíram, eu completei a rotina esticando as pernas no sofá, ligando a TV e deixando as notícias rolarem enquanto saboreava minha caneca de café. Só então comecei a trabalhar. Tudo igual.

Costumo dizer que não gosto de rotina, mas na realidade eu gosto sim, porque isso é o que me mantém calma dentro da minha zona de conforto. O que eu não gosto é quando a quebra dessa rotina é motivada por atos ou acontecimentos alheios à minha vontade. Quando alguém resolve que eu vou ter que cumprir ordens, por exemplo. Eu preciso me sentir com controle total sobre tudo que acontece à minha volta. Talvez por isso, o fato de eu ter me aposentado cedo tenha sido uma das melhores decisões que tomei na vida.

Confrontar a realidade não faz parte da minha lista de virtudes, mas sim da de fraquezas, as quais assumo sem medo de desapontar aqueles que me julgam pelas aparências. Evito assistir histórias de dramas reais, visitar áreas ou lugares onde vivem pessoas carentes ou enfermas, ir a funerais, etc. Enterro, nem se fala.  Tenho pavor!  Quando pequena, meus pais pensavam que me “protegiam” evitando me expor a esses tipos de emoções. Hoje penso que nisso eles não beneficiaram em nada a minha vida adulta.

Mas como eu estava dizendo, aquele parecia ser um dia normal. Qualquer coisa que me desviasse da zona de conforto, poderia causar uma reação no mínimo desconfortável, mas isso não iria acontecer porque eu estava com o controle nas mãos.

Quando chegou a hora de buscar a neta na escola, entrei no carro e comecei a dirigir.  O calor era insuportável, próprio dos dias de verão do sul da Flórida.  Lembrei-me do tempo em que fazia um trajeto parecido quando a outra neta, hoje com 19 anos, estudava numa escola quando morava em Pembroke Pines.  Depois da outra, hoje com 14 anos, que morava em Gainesville.  Agora que ambas vivem no Tennessee, a saudade é enorme e só parcialmente compensada por essa neta caçula.

No caminho de volta pra casa viemos conversando amenidades.  A neta tinha então 4 anos.  Quando entramos em casa , ela que tem uma memória visual privilegiada, notou que na mesa da sala de jantar havia um arranjo de flores que não estava lá antes.  A mãe tinha adquirido as flores anteriormente mas só foram colocadas na mesa na parte da manhã, quando ela ainda estava na escola.

O diálogo que se seguiu foi um dos mais emocionantes que tive com aquela criança:

– [neta] Vovó, que flores são essas? São do nosso jardim?
– Não, são flores artificiais que sua mãe comprou
– [neta] Por que ela não comprou flores de verdade?
– Não sei, mas acredito que foi porque ela não gosta de ver flores de verdade quando morrem
– [neta] Mas as flores não morrem, é só colocar no vaso com água …
– Morrem sim. As flores não duram pra sempre. Por isso ela preferiu as artificiais.

Ela parou de falar por um momento.  Observei seu olhar distante, enquanto afagava as pétalas daquelas flores.  E de repente fez a pergunta que puxou meu tapete:

“Vovó, existe Avó artificial?

Eu não consegui responder.  Segurei o choro.  Naquele momento, só me ocorreu perguntar:

“Você quer sorvete? Temos de chocolate e de baunilha …
– [neta] Quero sim, vovó … de chocolate.

Foi naquele dia que me dei conta da imensa vulnerabilidade de nós duas. Minha porque, querendo ou não, mantive o padrão de não enfrentar a realidade ao oferecer sorvete ao invés de tentar explicar de uma forma natural aquilo que já estava na hora dela saber, e dela por achar que seria possível imortalizar a avó comprando outra “fake”.

Mas ambas amadurecemos e hoje essas dúvidas já não existem.  Ao longo do tempo uma ensinou a outra que saber dizer adeus faz parte da vida.

Aquele diálogo também serviu como lição pra mim de que a visão que os netos tem dos seus avós vai muito além do desejo lúdico de estar perto da gente só porque somos divertidos ou gostarmos de brincar com eles.  Tem a ver com um amor imenso, daqueles que não admite separações temporárias, que dirá eternas.  Eu sinto essa mesma sensação quando estou com as outras netas já em fase de adolescência.

Portanto, enquanto o relógio da vida não me disser que já é hora de ir-me, eu quero aproveitar cada minuto que puder com minhas 3 netas lindas que sempre me tratam com muito carinho, respeito e sobretudo amor, as quais eu amo muito também.

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