Para que servem as notícias que só causam indignação?

by | Jul 20, 2020 | Crônicas

A frase que usávamos para descrever certas manchetes do jornal O Dia no final dos anos 50 era: “se espremer esse jornal, sai sangue”. Meu pai adotivo comprava esse veículo diariamente. Trazia pra casa após o trabalho e lia aquelas notícias durante ou após o jantar. E mamãe repetia à cada notícia ruim: “que horror!”, “que absurdo!”, “onde vamos parar?”. Nunca vou saber se minha mãe o fazia pra agradar meu pai ou se era porque achava realmente que tudo que ele relatava era o pior que ela tinha ouvido falar até então.
 
Papai não lia a coluna social, muito menos o caderno de artes que falava sobre os filmes e as peças de teatro em cartaz, os quais eu adoraria ter sabido sua opinião.  Ele tampouco passava pra mim alguma inserção educativa. Se lia essa parte, não comentava nada conosco.
 
Tudo que parecia chamar a atenção dele eram as notícias ruins, os assassinatos, os desmandos do governo pós Getúlio. Da construção de Brasília só lembro as críticas à Juscelino. Do governo de Jânio Quadros só lembro que ele era uma ameaça de comunismo. Ah, e ele gostava muito de falar sobre as fofocas no mundo artístico, sobre quem comeu quem, quem deu pra quem e porque o fez. E claro que nessa comparação de meritocracia sobre talentos e sucessos, quem era bom era o ator. A atriz era sempre a puta que deve ter dado pra alguém pra chegar onde chegou.
 
Se tudo que ele leu e relatou entre 4 paredes não ajudou em nada para que o Brasil daquela época fosse melhor do que o atual, pra que estou  repetindo os mesmos erros dentro das paredes virtuais? Se tudo que vejo e ouço está escrito em infindáveis livros, artigos, processos com jurisprudência firmada e até mesmo a Constituição, por que me contento em reclamar diariamente de crimes que deveriam ser punidos com o rigor da lei, com quem é incapaz de fazer algo contra isso?
 
Não estou falando em parar de reclamar. Estou falando em reclamar com as pessoas certas. Se elas já não existem, aí sim preciso parar de resmungar e deixar que o circo pegue fogo.  Assim como eu deveria guardar as notícias virtuais no mesmo armário onde estão guardados os jornais antigos.  Ou seja, fechar minhas contas nas redes sociais e viver o que me resta de vida.  Só que isso é impossível  Seria como contar com a volta do telex, fax, correio para continuar a ser produtiva.
Mas já está mais do que claro que a indignação expressa por frases tais como “que horror!”, “que absurdo!”, “onde vamos parar?”, não leva a lugar nenhum.  Só faz com que eu seja considerada rabugenta e chata, porque o volume de gente que prefere esse estado de coisas é absurdamente maior.