O Telescópio da Empatia

by | Mar 17, 2018 | Crônicas

O Telescópio de Empatia é um fenômeno psicológico que afirma: “É mais fácil alguém se preocupar com uma pessoa do que com muitas”.

Por quê? Porque podemos nos colocar no lugar de uma pessoa. Podemos imaginar e simpatizar com a situação dessa pessoa. Podemos vê-la, relacioná-la, identificar-nos com ela. Isso é factível. Não podemos nos colocar nos pés de milhões. Nossa mente (e coração) não conseguem conceber, compreender ou exibir números massivos.

Trazendo esse conceito para a minha realidade, posso encontrar explicação para o porquê de eu ter me chocado mais com o tiroteio da escola Marjory Stoneman Douglas de Parkland (FL) do que o da Sandy Hook Elementary School de Newtown (CT). Primeiro, porque Parkland está há poucas milhas da minha casa. Segundo, porque conheço alguém que mora naquela cidade e que perdeu um familiar no tiroteio. Terceiro, porque há bem pouco tempo nós pensávamos em mudar para lá, mas desistimos, mas numa fração de segundos imaginei que minha neta poderia ter sido uma estudante daquela escola que agora considero extremamente vulnerável, até que me provem o contrário.

Nos dias que se seguiram ao tiroteio, por causa da reação irada de várias pessoas nas redes sociais, foi difícil segurar a língua pra não responder à altura os questionamentos revoltados daqueles que achavam que as pessoas deviam estar muito mais chocadas com a morte de centenas de crianças da Síria.

Como explicar pra quem não está interessado em entender, que uma pessoa é relacionável, porém milhares não necessariamente? Se fosse simples assim, pessoas que se dedicam a ajudar causas humanitárias não precisariam implorar por doações para ajudar aquelas mesmas centenas de crianças. Os bombardeios na cidade de Aleppo (Síria) estavam rolando há muito tempo sem que muita gente se desse conta disso. No entanto, bastou que a imagem de um menino ensanguentado, resgatado de ruinas daquela região circulasse na mídia para que imediatamente o mundo se desse conta de que um conflito nada novo estava matando centenas de crianças. O telescópio da empatia foi acionado instantâneamente.

E isso está acontecendo de novo. Dessa vez, vemos pessoas que recriminam outras por conta da comoção nacional gerada pela morte (melhor dizendo, execução) da Vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro. Mas a indignação de quem condena essa perversidade é perfeitamente relacionável. Seja por questões de raça, gênero, origem, identificação com as causas que ela defendia corajosamente, etc, não há o que se discutir. Aliás, já não havia o que discutir fosse ela Marielle ou qualquer outra pessoa. Um carro foi metralhado e um ser humano morreu em consequência desse ato covarde. Um ser humano não … dois! Só que, de novo, o telescópio da empatia está apontando para ela porque é com ela que muitos se identificam. Não apenas por ter sido famosa, mas principalmente por ter sido um exemplo corajoso de ativista a ser seguido num momento tão crítico da história do Rio de Janeiro.

Absurda é a indignação daqueles que acham que existem questões que merecem mais atenção do que esse episódio. E o que me deixou ainda mais perplexa foi ter lido afirmações de muitos (sim, muitos) brasileiros que acham que o que aconteceu “foi bem feito”, que “ela merecia porque defendia bandido”, e outras formas bárbaras de linchamento póstumo que derrubam qualquer argumento de esperança de alguém que acha que o Brasil um dia pode melhorar.

Ativistas são heróis corajosos não somente porque tem consciência de que é preciso não ter medo de lutar em favor de minorias e contra as forças de um sistema opressor, mas também e principalmente contra a opinião pública que muitas vezes reage sem pensar, sem empatia. Que questiona o pobre porque é rico, o rico porque é pobre, o preto porque é branco, o branco porque é preto, o macumbeiro porque é muçulmano, o muçulmano porque é cristão, o gordo porque é magro, ou seja, qualquer pessoa que não seja ou não pense como ele. Esses são os verdadeiros aliados da oposição ao ativista.

Esses são os que delatam. Os que mandam matar ou se oferecem pra fazer o serviço. Os que ganham com a derrubada de alguém que só estava tentando defender uma minoria. Esses, infelizmente, são a maioria.
Sim, porque maioria não precisa de ativistas.

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