A quem interessa que eu tenha saúde?

by | Mar 14, 2017 | Crônicas

Sempre fui democrata. Que liberal seria eu se escolhesse outro partido? Mas procurava olhar as pessoas e trazer para o meu convívio, independentemente do partido que elas seguiam. Até porque não tem nada a ver. Tem muito democrata que não merece meu endosso tampouco.

Sempre usei o critério quase infalível da observação sobre cada gesto, cada palavra ou reação dessas pessoas. É claro que volta e meia me enganava e até hoje cometo enganos mas sei que meus erros de avaliação diminuíram bastante em todos esses anos de praia. A idade nos torna mais sábios do que quando achávamos que Woodstock era apenas um festival de música sem maiores pretensões.

Na política, sempre aceitei – ou engoli – as decisões de quem estava no poder. Instintivamente eu já respeitava o critério de que todo comportamento tem uma intenção positiva. Com isso, vi com uma passividade que hoje condeno em mim mesma, muitos escândalos que envolveram administrações anteriores, tais como Irangate e Watergate.

Li sobre suicídios inexplicáveis como o de Marilyn Monroe, a crucificação de Monica Lewinsky que até hoje é a única puta – a Maria Madalena da história. E tantas outras mulheres que perderam seu trabalho, sua dignidade ou a vida por serem ameaça aos planos de homens acostumados ao poder.

Decisões absurdas tais como a guerra do Iraque para encontrar armas de destruição massiva que nunca apareceram, a guerra do Vietnam, os drones assassinos de Obama e tantos outros conflitos que não exigem que seus mandatários saiam na frente de batalha como acontecia nas guerras dos homens de verdade.

Quando eu discordava ou quando a história me apresentava o lado feio do resultado de tais decisões, a última coisa que me vinha à mente era se o mandatário ou acusado pertencia a esse ou aquele partido. Eu me fixava nos nomes deles, mas depois esquecia. Um escândalo sempre apagava a memória do escândalo anterior.

Minha mudança – um pouco tardia – começou no dia 8 de Novembro de 2016 e as razões nem preciso especificar. Só que cada dia a coisa piora.

Agora, por exemplo, quando vi um político dizendo que uma pessoa deve decidir se prefere comprar um iPhone ou investir num plano de saúde ou quando outro disse que o que faz o plano de saúde proposto ser melhor do que o anterior é que no proposto a pessoa tem a liberdade de escolher se quer seguro médico ou não, fiquei estarrecida.

E quando penso que as pessoas que endossam tais pronunciamentos pertencem ao mesmo partido (costumo chamar de tribo), vejo que mais uma vez errei nos meus critérios de avaliação.

Ao sair feliz hoje após um exame de colonoscopia com a informação de que meu cólon não apresentou nenhum pólipo e ao ouvir minha médica falando sobre como o governo dá pouco valor à medicina preventiva, concordamos que quem tenta fazê-lo é julgado, não por ter tentado resolver mas por ter impedido outros a seguirem em frente com seus interesses escusos. Detalhe: minha médica nasceu na India e provavelmente seus argumentos são ouvidos com desdém por muitos de seus colegas “nativos”.

Portanto, penso que ainda preciso aprender muito para avaliar cada ser humano não pela tribo à qual ele pertence, mas pela tribo que ele endossa. Coincidências não existem. Tais pessoas criam seus sub-grupos e agem disfarçadas sob um grupo maior. Assim como existem os falsos profetas, existem os falsos benfeitores da humanidade. Assim como existem os falsos democratas, existem os falsos republicanos.

E a administração que aí está – e que certamente foi escolhida por um sub-grupo, não é igual às anteriores. É muito, mas muito pior.

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