A casa da Piedade, onde tudo começou

by | May 28, 2018 | Histórias

Uma história de superação que contei no Toastmaster

Agora que completei 70 anos, as lembranças e reflexões sobre minha trajetória tem vindo à tona com mais frequência.  A que veio essa semana tem a ver com o discurso “Quebra Gelo”  que fiz numa reunião do  Toastmaster em Setembro de 2014.  Acredito que algumas pessoas que – como eu – não nasceram em berço de ouro nem estudaram em Harvard entenderão o porquê do orgulho que sinto de mim mesma por ter conseguido superar as dificuldades sem cair na tentação de praticar atos ilícitos para chegar até aqui.

“Foi nessa casa (*) da rua Ana Quintão no bairro da Piedade, subúrbio do Rio de Janeiro, que eu cresci desde que fui adotada aos 6 meses de idade. Na época, meus pais biológicos talvez pensassem que aquela família me daria uma oportunidade de vida melhor do que a que eles  podiam me proporcionar.  Afinal aquela casa “até geladeira tinha …” (esse era o padrão que definia os que tinham mais do que os outros}. Foi lá que aprendi a brincar de roda numa época em que as crianças ainda podiam brincar na rua com segurança.

Mas foi em 1961 que as coisas começaram a mudar de cenário. Eu tinha apenas 13 anos quando fiz a prova na Escola França para passar do 5o. ano primário para o (antigo) ginásio, mas acabei sendo reprovada.  Certamente, por ignorância, meus pais adotivos não fizeram o mínimo esforço pra que eu repetisse o ano e continuasse a estudar. Como éramos pobres, eles achavam que trabalhando eu ajudaria nas despesas da casa e isso era só o que importava naquela época até que eu conseguisse um bom partido e casasse.

Talvez parte do meu insucesso na escola tenha sido porque Elvis Presley era um dos meus ídolos favoritos.  Eu queria muito aprender inglês.  Não lembro como consegui um dicionário minúsculo que eu mantinha escondido e vivia buscando o significado das palavras que ele repetia em suas canções.

Comecei a trabalhar como balconista de um armarinho a duas quadras da minha casa.  Dava pra ir a pé.  Armarinho, para quem não sabe, era uma versao infinitamente menor do que uma loja “Michaels” ou “Johans” aqui na Flórida, onde se vendia tecidos, carretéis de linha, botões, etc.

Apesar de muito jovem, minha adaptação ao trabalho foi muito rápida. Tão rápida que o dono do armarinho me dizia que eu devia procurar um trabalho à altura da minha inteligência. Resolvi seguir o conselho e pouco tempo depois fui trabalhar como Caixa de Armazem, num mercadinho que ficava em frente ao armarinho. Ainda lembro o nome do estabelecimento: Armazém  Corcovado. Um verdadeiro “upgrade” na carreira de quem começou como balconista 🙂

Mas não demorou muito até eu me cansar daquele trabalho e começar a procurar emprego.

Encontrei um de auxiliar de escritório num pequeno laboratório de produtos farmacêuticos no Andaraí (Irmãos Mendes).  Depois outro num laboratório americano bem maior, no Grajaú.   Chamava-se A.H. Robins, cuja matriz fica fica em Richmond, VA.  O Presidente  – Howard Cooper – um dia me disse num bom “portunglish”:  “Menina, se você aprende falar inglês em 6 meses, você ser meu secretária, porque você é muito bom”!

É claro que eu topei.  Comecei a estudar inglês intensivo no Curso Oxford na Tijuca, e 6 meses depois consegui ser promovida para o cargo de Secretária Executiva daquele mesmo senhor.

Eu estudava tudo que chegava às minhas mãos! Tudo! Aprendi Contabilidade e Espanhol por correspondência através do Instituto Universal Brasileiro, estudei Organização e Métodos pelo Senai, Taquigrafia no Senac, Datilografia no TED…  Aprendi a operar máquinas de telex, de perfuração de cartões de computador, de faturamento. Máquinas essas consideradas jurássicas hoje em dia!

E o tempo foi passando … Minha primeira filha  nasceu em 68 e a segunda em 77…. mas eu continuei devorando livros e fazendo cursos já que ser dona de casa não era a minha praia e eu tinha uma parceira fiel que durante muitos anos cobriu essa lacuna e sempre me incentivou para que eu não desistisse de correr atrás do meu sonho.

Até que cansei de ser secretária e comecei a estudar leis e práticas de comércio exterior e consegui emprego numa fábrica de plásticos na area de exportação (Vulcan). Graças àquele trabalho, conheci dezenas de países em vários continentes, visitando clientes e representantes. Aproveitava o tempo que sobrava para fazer algum turismo. Naquela época eu não tinha medo de falar com ninguém, apesar de arranhar o espanhol e o inglês.

Anos depois, aceitei um convite para ser Gerente de Exportação numa fábrica de Pisos e Azulejos (Klabin). Esse foi o pulo do gato que eu precisava para – pouco tempo depois –  trabalhar como Trader no escritório do representante dessa mesma fábrica, que logo depois me ofereceu a gerência da filial americana em New Jersey.  Engraçado que por duas vezes eu rejeitei a oferta, até que um assalto a mão armada no Ônibus Lins/Praça XV, me fez mudar de idéia.

Aceitei o emprego e me mudei para os E.Unidos em 89. Um mês depois fui transferida para a Flórida.  Enfrentei desafios maiores e computadores menores os quais não ofereciam a facilidade que temos hoje de “plug and play”. Naquela época era tudo “plug and pRay” porque até pra escrever uma simples carta no aplicativo Word, a gente tinha que saber um pouco mais de computação do que é necessário hoje em dia. Para montar um banco de dados, por exemplo. eu tive que aprender a programar em linguagem Visual Basic. Hoje está tudo mastigado nas nuvens do meu servidor.

Três décadas se passaram e hoje estou aqui: Solteira, Aposentada, “Vovó Blogueira”, Agnóstica e Avó orgulhosa de 3 lindas meninas.

Mas a idade já afeta a memória e por essa razão estou sempre lendo sobre novas técnicas de como falar bem e exercitar minha memória. Por isso acho muito importante e sempre recomendo o Toastmaster. E foi por isso que escolhi esse tema para o meu discurso “ice breaker” de hoje”

Histórias paralelas tenho muitas mas a mensagem para a platéia naquele dia no Toastmaster foi: faz todo o sentido a máxima de que a gente deve tentar fazer aquilo que gosta.  Sem querer, criei tipo meu próprio sistema a la “Montessori”, por ter escolhido estudar apenas aquilo que me dava prazer. Creio que se eu tivesse deixado a vida me levar como dizia Zeca Pagodinho e tivesse ficado me lamentando porque só estudei até o 5o. ano primário,  talvez ainda estivesse morando naquela casa  da Piedade. Por falar nisso, você lembra da foto que mencionei acima? Fiz uma busca recente no Google StreetView e veja como mudou …

Leu até aqui?  Fico feliz e lhe convido a caminhar comigo nessa estrada que ainda me resta para dividirmos experiências.  Invista na sua educação.  Leia muito.  Tente estudar ou trabalhar naquilo que lhe der prazer.  Pretendo continuar fazendo a mesma coisa, porque adoro aprender e ensinar o que aprendi a quem pensa como eu.

Se vocês ainda não conhecem o Clube Toastmaster, ele é sem dúvida um excelente caminho para capacitar indivíduos a tornarem-se comunicadores e líderes mais eficazes.  Já tive oportunidade de citá-lo em dois artigos anteriores: o primeiro intitulado “Todo ser humano é interesseiro”, um discurso valendo pontos para graduação e o segundo relatando minhas impressões sobre um seminário que assisti: “Toastmaster não é uma torradeira … é o saca-rolha da comunicação. 

Até breve!


(*) Achei a imagem dessa casa no Google StreetView anos atrás e guardei como lembrança.  Acabou servindo para ilustrar essa história e comparar com o que restou da casa anos depois.

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